
De Rita Lobato à maioria feminina, os avanços e desafios das mulheres na medicina brasileira
Em 10 de novembro de 1886, uma nota publicada no jornal A Federação, de Porto Alegre, informava que, na Bahia, a jovem rio-grandense Rita Lobato Velho Lopes havia sido aprovada no exame das matérias da quarta série do curso médico. Pouco tempo depois, ela se tornaria a primeira mulher a se formar em Medicina em território brasileiro, marco que simboliza o início da presença feminina na profissão no país.
Até o fim do século XIX, as mulheres eram proibidas de frequentar faculdades de Medicina no Brasil. Por esse motivo, a primeira brasileira a obter um diploma médico foi Maria Augusta Generoso Estrela, em 1881, após concluir a graduação nos Estados Unidos, no New York Medical College and Hospital for Women, em Nova York. A formação foi viabilizada com o apoio do imperador dom Pedro II, que incentivou sua trajetória acadêmica.
A presença feminina na Medicina brasileira, no entanto, cresceu de forma gradual ao longo do século XX. Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2020, em 1910 as mulheres representavam cerca de 22,3% dos médicos no país.
Ainda de acordo com o levantamento, a participação feminina voltou a crescer de forma mais consistente a partir da década de 1970, período marcado pela expansão do número de escolas médicas no Brasil. Naquele momento, as mulheres correspondiam a 15,8% dos profissionais da área.

Nas últimas décadas, a transformação no perfil da profissão se intensificou. Conforme o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, as mulheres já representam 50,9% dos médicos em atividade no país, tornando-se maioria na Medicina brasileira pela primeira vez na história. A projeção é que esse percentual chegue a 55,7% em 2035.
Crescimento feminino na profissão médica
Para a neuropediatra Dra. Cristiane Rocha, assistente de gestão do curso de Medicina da Faculdade Santa Marcelina, o aumento da presença feminina é resultado de um processo que se desenvolve há décadas.
“Há vários anos observa-se um processo de ‘feminização’ da Medicina no Brasil, do qual faço parte”, afirma. Segundo ela, ambientes profissionais com maior presença de mulheres tendem a reduzir polarizações no cotidiano de trabalho.
A participação feminina também tem impacto na forma como a gestão em saúde é conduzida. Para a especialista, a diversidade de perspectivas contribui para ampliar o olhar sobre as necessidades dos pacientes e das equipes.
“A liderança feminina traz mudanças em qualquer nível em que se desenvolve, porque provoca diferenças de olhar e de atitude organizacional”, diz. Como exemplo, ela cita a atuação das agentes comunitárias de saúde, em sua maioria mulheres, cuja abordagem costuma ser mais voltada ao cuidado familiar e ao acolhimento.
Desigualdades e barreiras na carreira
Apesar do avanço numérico das mulheres na Medicina, a equidade ainda não foi alcançada. Pesquisa publicada na PubMed Central aponta que mulheres ainda representam cerca de um terço das posições de liderança em instituições de saúde.
De acordo com a economista e especialista em gestão de pessoas na saúde Enivalda Pina, a ocupação de cargos de alta gestão ainda não reflete a proporção feminina na profissão.
“As estruturas de promoção ainda favorecem modelos de carreira lineares e ininterruptos, mais comuns entre homens. A abertura atual é maior em termos de aceitação e reconhecimento de competências de gestão”, afirma.
Para a Dra. Cristiane Rocha, as barreiras que dificultam a ocupação de cargos de chefia e coordenação por mulheres estão mais ligadas a fatores culturais do que técnicos. Ela lembra que a própria legislação ainda reflete essa desigualdade, citando a curta duração da licença-paternidade no Brasil.
Existe a cobrança de que a maternidade e a preservação dos relacionamentos familiares são papéis primordiais da mulher, que deve colocá-los sempre à frente da ambição profissional. – Dra. Cristiane Rocha
Outro ponto crítico é a diferença salarial. De acordo com pesquisa realizada pelo Research Center da Afya, o Brasil revela dados preocupantes sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres na classe médica. O estudo aponta que, em média, as médicas ganham 22,6% a menos que os homens.
Jornada dupla e impacto na carreira
Além das questões institucionais, fatores sociais continuam influenciando a trajetória das médicas. Um dos principais é a chamada jornada dupla, que combina trabalho profissional e responsabilidades domésticas ou familiares.
“A jornada dupla é o principal entrave para a ascensão feminina”, afirma Enivalda Pina. Segundo ela, esse cenário contribui para índices elevados de exaustão.
Um estudo internacional publicado em 2026 na revista científica PLOS ONE analisou a saúde mental e a qualidade de vida de médicos brasileiros e identificou diferenças relevantes entre homens e mulheres na profissão.
A pesquisa reuniu 2.005 médicos de diferentes regiões do país e apontou que a qualidade de vida média da categoria é considerada moderada, com maior impacto no domínio psicológico, relacionado a fatores como estresse, emoções e bem-estar mental.
O levantamento também revelou desigualdade de gênero na saúde mental. Segundo o estudo, 46,8% das médicas relataram algum transtorno mental, percentual significativamente maior que entre os homens (33,5%). A diferença aparece principalmente nos diagnósticos de ansiedade e depressão, mais frequentes entre as mulheres participantes.
Caminhos para a equidade
Especialistas apontam que políticas institucionais voltadas à equidade podem contribuir para reduzir essas diferenças. Entre as estratégias estão programas de mentoria, transparência salarial e políticas de parentalidade mais amplas.
Para Enivalda Pina, o desafio do setor de saúde será transformar o crescimento numérico das médicas em igualdade real de oportunidades. “O futuro da Medicina é feminino em números, mas a sustentabilidade do setor depende de transformar essa presença numérica em equidade de poder e remuneração”, afirma.
No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a evolução da presença feminina na Medicina simboliza uma conquista histórica. Ao mesmo tempo, revela que a busca por igualdade na carreira médica ainda depende de mudanças culturais, institucionais e sociais que seguem em construção.
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