Principalmente em adoções tardias, histórias de vida de crianças e adolescentes pode interferir na adaptação às novas famílias.
Sete anos vivendo em quartos coletivos, entre assistentes sociais e outras crianças e adolescentes. Sem o afeto individual que se traduz em gestos ou até em comida caseira, feita por mãe ou pai com mais amor do que ingredientes. Depois de tanto tempo, porém, a espera findou para Messias, que encontrou colo, casa e família ao ser adotado por Suelen Brasil, 35, e o então esposo, em 2014.
Mãe e filho se conheceram em outubro daquele ano, encerrando a espera da professora pela maternidade adotiva, já que “nunca sonhou em ser mãe biológica”. Mas quando uma expectativa acabou, outra foi iniciada. “Normalmente, a criança se apega diretamente com a figura materna, mas o Messias foi com a paterna. O processo de conquista foi muito longo pra ele ter confiança em mim – foram 11 meses até eu ganhar o primeiro abraço”, relembra Suelen.
Para a professora, o desafio da “gestação” foi muito maior pelo fato de a adoção ter sido tardia, quando o adotando já está fora da faixa etária de até três anos. “Quando a criança vem, são dois mundos que se encontram: você aprendendo a ser mãe, ele a ser filho. A gente idealiza, mas, quando chega, é o filho real. Há uma certa ‘frustração’ naqueles primeiros meses. Depois, as coisas se encaixam naturalmente”.
Adaptação
Durante quase um ano, tocar o corpo do filho era mais uma estratégia de aproximação do que um gesto natural, já que Messias se incomodava com o contato de Suelen “até na hora de dar banho”. O processo foi longo, mas válido. “Eu me dediquei exclusivamente a ele, que estava comigo 24h por dia. E eu insistia, mesmo com as barreiras que ele impunha. Chamava sempre de filho, reforçando os sentimentos, dizendo que eu o amava, que o pai o amava. Ele foi vendo que eu não ia desistir dele. A partir disso, ganhou confiança”, pontua a mãe.
Pouco a pouco, a cada demonstração de amor, as barreiras emocionais que o filho erguia foram derrubadas. “Hoje, com quase 12 anos, o Messias é extremamente apegado, grudento, o tempo todo agarrado comigo. A gente encara esse processo como preenchimento de uma lacuna da vida dele. Ter esse carinho de quem passou 7 anos com a ausência materna é tudo”, emociona-se Suelen.
A doutora em Educação Patrícia Lana reforça que abraçar o conceito de criação com apego – que prioriza “olhar para a necessidade do outro com empatia, paciência e amor” – é um processo fundamental, mas “difícil” para as famílias adotivas. “Especialmente no caso de adoções tardias, momentos desafiadores serão certos.
Crianças e adolescentes nos abrigos vivem dificuldades de ordens diversas, que podem reverberar no comportamento, durante o período de adaptação aos novos lares. O movimento da criação com apego, nesse sentido, pode auxiliá-las na construção de vínculos com seus filhos”, pontua.
Conceito
Criado nos Estados Unidos, o conceito de “criação com apego” sugere o olhar atento e empático como ferramenta para estabelecer vínculo afetivo com o outro, como explica Patrícia. “Não se trata de receita de bolo, porque educar é uma tarefa altamente complexa e cada família tem seu contexto particular, mas de orientações para que se veja e se compreenda a criança e suas necessidades e o que há por trás de seu comportamento, seja ele de choro, seja de riso. Ouvi-la atentamente, acolhê-la e observar o que acontece com ela possibilita a criação de um vínculo duradouro”, salienta a professora.
Se ser empático é também romper as barreiras de si para chegar ao outro, a funcionária pública Adriana Cavalcante, 50, tem aplicado a estratégia na adaptação do filho de sete anos, que adotou sozinha há um ano e meio. “Ele estava muito calmo na vinculação, mas quando chegou em casa, muita coisa do passado dele foi soltando. Teve que se adaptar a regras, e aqui e acolá ainda é difícil. Pra gente é rápido, porque é adulto. Pra criança é diferente”, relata a mãe, que solicitou ao G1 que não publicasse o nome do filho.
O processo tem sido facilitado, então, por um fator: o carinho entre os dois. “A vinculação foi rápida, logo ele começou a me chamar de mãe. Eu até evitava, tinha medo de frustrá-lo. Eu sou muito fechada, e ele é muito carinhoso – então, por ele, eu aprendo a ser mais carinhosa também”.
Tempo de espera
Neste mês, 150 crianças constam como “disponíveis” no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) na capital cearense, e outras 135 estão vinculadas a pretendentes – ou seja, no processo de visitas que precede a oficialização da adoção. A quantidade de adotantes cadastrados e disponíveis no sistema, porém, é cerca de quatro vezes maior que a de adotandos, chegando a 641, de acordo com o CNA.
Conforme o titular da 2ª Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude do Ministério Público do Ceará (MPCE), Dairton Oliveira, “o tempo médio de espera dos pais na fila do CNA de Fortaleza é de um ano e meio, e o máximo, que era de até oito anos, reduziu para três e meio”. Até 1ª de julho, “apenas 25 pretendentes” haviam entrado na fila para adotar, cujo maior contingente de adotantes (44%) entrou em 2017”. A expectativa, conforme o promotor, “é de que até o final de 2019, todos os pretendentes que entraram na fila em 2016 realizem o parto do coração. Todos estão tecnicamente grávidos.”















